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Primeira
mulher a ganhar um prêmio da Academia Brasileira de Letras. Intelectual,
poeta, cronista, jornalista, educadora. Foi considerada leviana - casou-se
duas vezes - ; "em cima do muro" - bateu de frente com a Geração
Modernista -; e reacionária - cobrava melhorias na Educação do País.
Mas, acima de tudo, seus poemas são os mais lidos da Literatura
Brasileira. Amiga de Mário de Andrade, contemporânea dos educadores
Fernando Azevedo e Anísio Teixeira, criou a primeira biblioteca infantil
do Brasil. A morte a acompanhou desde cedo, mas ela preferiu acompanhar a
vida, com sua poética, seu misticismo, seus desafios.
Sem mais palavras,
Cecília Meireles. |
Cecília
Benevides de Carvalho Meireles nasceu no dia 7 de novembro de 1901. Antes
mesmo de vir ao mundo, a infância da poeta foi marcada pela morte: seu
pai faleceu três meses antes de seu nascimento; sua mãe morreu quando
tinha três anos; e seus irmãos morreram antes de seu nascimento. Cecília
foi criada pela avó portuguesa Jacinta Garcia Benevides.
Se a morte foi uma constante em sua vida, as Letras também não deixaram
de ser. Em 1910, na conclusão do curso primário, a autora recebeu
medalha de ouro das mãos de Olavo Bilac, então considerado o maior poeta
brasileiro. Aos 16 anos, Cecília se tornou professora pela Escola Normal.
Paralelo a isso, estudou idiomas e entrou para o Conservatório Nacional
de Música, onde teve aulas de canto e violino.
As poesias surgiram neste período de sua vida. A adolescente, criada
praticamente sozinha pela avó, passa a escrever compulsivamente para
exprimir seus sentimentos em relação ao mundo e às pessoas. Desta
forma, em 1919, aos 18 anos, Cecília publica seu primeiro livro - Espectros
-.
Dois
anos depois, casa-se com o artista plástico português Fernando Correa
Dias, que seria o ilustrador das futuras obras de Cecília e pai de suas
três filhas (Elvira, Matilde e Fernanda). O que parecia ser um amor
eterno foi marcado, no entanto, com mais uma morte na vida da poeta:
Fernando sofria de depressão aguda e suicidou-se em 1936.
Ao mesmo tempo que publicava seus livros de poesia, uma outra faceta da
poeta surguia: a de jornalista e educadora. Entre os anos de 1919 e 1927,
Cecília escreveu para as revistas Árvore Nova, Terra do Sol,
Festa e Travel in Brazil. Já a atuação da poeta enquanto
educadora confunde-se com os títulos publicados por ela a partir de 1927,
quando saiu a prosa poética Criança, Meu Amor, livro que se
transformou em leitura oficial nas escolas. Desta época, data a tentativa
de Cecília em concorrer à Cátedra de Literatura da Escola Normal, em
que não obteve sucesso. Entre 1930 e 1933, a poeta passa a atuar
diretamente na esfera educacional do País, escrevendo a Página da
Educação no Diário de Notícias do Rio. Em todos os seus
artigos, a preocupação em defender a modernização na Educação do País.
Essa defesa, lógico, não passou despercebida pelo Poder Central. As críticas
e perseguições às idéias progressistas da poeta - incluindo de Getúlio
Vargas - foram os fatores determinantes para que ela abandonasse, em
parte, o trabalho como jornalista. Em parte, porque Cecília trocou o Diário
de Notícias pelo jornal A Nação. A condição: não escrever
sobre política. Ela escreveu, ainda, nos jornais A Manhã e Correio
Paulista.
Um dos fatos mais marcantes da vida da poeta acontece em 1934, quando
inaugura, no Rio, o Centro de Cultura Infantil do Pavilhão do Mourisco -
a primeira biblioteca infantil do País. O fato, aliado ao talento da
prosa e poesia da autora, rendeu a Cecília um convite do governo português
para difundir a cultura, literatura e o folclore brasileiros, em uma série
de conferências no país europeu.
Apesar de provar sua competência profissional, atuando em diferentes áreas,
somente com a publicação de Viagem, em 1939, Cecília Meireles é
reconhecida oficialmente como uma das mais promissoras poetas brasileiras
da época. O livro foi condecorado com o prêmio Poesia da Academia
Brasileira de Letras. A partir de então, inicia-se uma nova fase da vida
de Cecília; ela casa-se novamente (em 1940, com Heitor Grillo), começa a
lecionar Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, e sua
produção intelectual entra uma fase intensa. As principais obras da
autora foram publicadas nesta fase: Vaga Musica (1942), Mar
Absoluto (1945) e Retrato Natural (1949).
Mas é em 1953 que surge a que é considerada, por muitos intelectuais,
"a obra" de Cecília Meireles. Após dez anos de pesquisa, a
poeta publica O Romanceiro da Inconfidência - narrativa de caráter
histórico e nacionalista com referência à Inconfidência Mineira,
associando história e tradições e lendas mineiras. Neste mesmo ano, ela
recebe o título de Doutor honoris causa da Universidade de Délhi,
na Índia, na qual havia sido convidada pelo governo desse país para
participar de um seminário sobre a obra de Gandhi.
Em
9 de novembro de 1964, a mais lida poeta brasileira falece, em plena
atividade literária; ela deixou incompleto um poema escrito em comemoração
ao quarto centenário do Rio de Janeiro. Um ano após a sua morte,
Academia Brasileira de Letras concede à autora o Prêmio Machado de
Assis pelo conjunto da obra. |